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30.1.11

Tudo que é sólido desmancha no ar... literalmente




Refletindo sobre o desabamento do prédio Real Class, neste fatídico 29 de janeiro de 2011 – mais uma vez o 11... – e tendo chegado ao cúmulo de ficar feliz porque aconteceu antes que meu primo Beto se mudasse para lá, onde comprara um apartamento no 30° andar, caí em mim e conversando com amigos acho que dá para entender o porquê das coisas.
Antes de mais nada vale o registro da reação da grande imprensa. Além de se aproveitar comercialmente da tragédia, também se preocupou com seu anunciante, mais uma vez em detrimento de seu leitor.





Quem me chamou atenção disso foi o jovem David Carneiro, que brilhante e crítico registrou a primeira manchete do grupo ORM “Chuva provoca desabamento em Belém” – ou mais ou menos isso (ele vai postar isso no blog dele o tribunadodavi.blogspot.com). Ora, se chuva for motivo de desabamento de prédio em Belém, estamos todos soterrados e não sabemos. Pode parecer mero surto de inveja dos jornais cariocas diante do faturamento com o desastre que as chuvas provocaram no Rio de Janeiro, já que aqui chove muito mais. Mas é flagrante a imediata tentativa desvia o foco da responsabilidade da construtora e dos agentes públicos que deveriam fiscalizar a obra.
Depois foi a vez do Diário do Pará, que animado pela acirrada concorrência, não quis perder nem no item “publicação de manchetes absurdas” e estampou “Falha geológica pode ter causado desabamento”, dando crédito técnico ao engenheiro calculista da obra que, na verdade, o único cálculo que estava fazendo era de como tirar o “seu” da reta... Aí eu me lembrei que sou geólogo. E mesmo um não praticante, como eu, sabe que estamos em uma bacia sedimentar recente onde isso não ocorre. Além disso, como uma falha geológica, quase sempre quilométrica, poderia ocorrer e “vitimar” por sorteio apenas uma edificação???
Na verdade, mais uma vez o anunciante venceu o leitor que pensa que paga para ser informado do que acontece, quando na verdade está pagando para ser formatado segundo interesses de outros, com recursos econômicos para isto.





Então o que é mais provável que tenha acontecido?
Minha suposição é que como qualquer construção, mesmo um prédio, não é feito só de cimento, tijolo, vergalhão e outros materiais visíveis. O Real Class, também é produto de uma construção que envolve valores morais e éticos, práticas sociais e políticas determinadas por relações econômicas e toda uma cultura introjetada na sociedade pelo nosso “modo de produção” que na verdade é o nosso modo de vida.
Portanto, é mais provável que tenha ocorrido a combinação de fatores como:
1) A busca irracional pelo rebaixamento do custo dos produtos que campeia as metas de rentabilidade estabelecidas pelos capitalistas, sem que isso se converta em vantagem econômica para os consumidores, levando a matérias primas de menor qualidade; redução da compra do volume de materiais necessários; contratação de mão-de-obra cada vez mais barata e, por isso, quase sempre menos qualificada; diminuição do número de trabalhadores, sobrecarregando os que são contratados e por aí vai.
2) A formação cultural dos consumidores que, fora o preço, não se organizam para cuidar dos itens acima, boiando entorpecidos na maré das fantasias e lacunas emocionais calculadamente trabalhadas psicologicamente pelo marketing e pela compreensão edonista de que a felicidade é proporcional ao conforto material.
3) A estrutura pública que o contribuinte sustenta com o pagamento de seus impostos diretos e indiretos, supondo que paga para que esta estrutura o proteja, quando, na verdade, paga para que os outros, aqueles que têm pode econômico, possam usufruir benesses e vantagem sobre os contribuintes pela cultura da corrupção que supostamente pode fazer com que eventualmente desde o fiscal até o gestor maior sirvam não a todos os cidadãos, mas aqueles que os “gratificam” por fora de seus salários, criando na prática cidadãos com níveis de exercício de direitos proporcionais a sua posição econômica.
4) A formação cultural dos cidadãos e cidadãs, que não se organizam para exercer Controle Social sobre o Estado, disputando o orçamento público e monitorando sua execução na ponta.
5) A cumplicidade do histórico do judiciário que também sopesa a influência econômica dos agentes envolvidos no conflito. Quem nos demonstra isso é a memória cidadã de José Varela que nos lembra do que aconteceu em episódio semelhante: “a queda do espigão "Real Class" levanta a tragédia do edifício "Raimundo Farias", que parecia sepultada há 30 anos nos arquivos do judiciário esquecida por detrás da cortina de propaganda imobiliária ávida de lucros e espaço "nobre" numa ilha de novos ricos promovida pela devastação da Floresta Amazônica e outras tragédias socioambientais, cercada de violência e pobreza por todos os lados”
E, outro dia conversando com o inteligente e instigante arquiteto Flávio Nassar, pró-reitor de Relações Internacionais da UFPA, ouvi atento que se em 1989 havia caído o muro de Berlin, símbolo do socialismo soviético, que serviu de objeto para semanas de reportagens e outras matérias na grande mídia, em 2008 outro muro (Wall) de mesma, ou maior importância, havia ruído em 2008 com a grande crise financeira iniciada no sub-prime americano, que também fez com que a solidez do sistema financeiro mundial desmanchasse no ar. Falava Nassar do “Muro da Rua” ou Wall Street. Só que desta vez, nossa mídia não repercutiu nem 20% do que veiculou sobre Berlin – seria mais uma vez a força dos anunciantes?





O livro “Tudo que é sólido desmancha no ar” é um ensaio sobre a aventura da modernidade segundo seu autor, Marshall Berman. Foi lançado em 1982 e, apesar do título reproduzir uma metáfora usada por Karl Marx para expressar que a sustentação do capitalismo estava justamente em vigas meramente ideológicas e simbólicas, foi amplamente utilizado, principalmente pela esquerda crítica ao modelo bolchevique do partido comunista russo, quando da queda do muro de Berlin em 1989, mesmo sendo feito de concreto e vergalhão, como símbolo do desmoronamento do império soviético. O mesmo raciocínio serve para Wall Street, como ícone do mundo capitalista, não é mesmo?
Bem,... o que estamos esperando???

3 comentários:

Márcia Corrêa disse...

E como são rápidos os diagnósticos: chuva, falha geológica. Sem que nenhuma investigação tivesse tempo de cncluí-lo. É quando a imprensa mata pela segunda vez as vítimas e sepulta o direito dos que sobrevivem de se defenderem com a verdade.

Sinval Santos disse...

Caros amigos
Em momentos sérios e de muita tristeza como estes é necessário que exercitemos mais ainda a crítica e a auto-crítica e reflitamos em quem são os aliados verdadeiros das causas debatidas nestes grupos virtuais específicos.
Neste sentido, estou partilhando enquanto resposta, a convocatória enviada pelo professor Abel, alguém que se adianta nas lutas, não se mantém com discursos inteligentes mas contraditórios, esvaziados de sentido em relação ao contexto do desabamento ou de outros assuntos e a partir de suas próprias práticas segue distanciando-se da prática de pessoas que criticam e avaliam o contexto da situação mas continuam filiados, pedindo voto, se candidatando por um partido que perdeu todos os seus princípios e promove a destruição da Amazônia como no caso da construção da usina de Belo Monte, partido que tem como base de apoio o PTB de Duciomar Costa que está fazendo a alegria da classe de empresários gananciosos permitindo a construção de vários prédios semelhantes na orla de Belém e tantos outros desmandos, partido que vergonhosamente ostentou o apoio do PMDB rachado com Almir Gabriel, notabilizado pelo massacre de Eldorado dos Carajás.
Acredito que todos tem o direito de se expressar nestas listas mas também é nosso direito demosntrar nosso descontentamento com os discursos vazios do contrário estaremos perpetuando o estado de coisas e fazendo transparecer que estamos acreditando na prática de pessoas que ajem dessa forma.
Embora cada um possa fazer de sua vida o q quiser é um direito nosso ficar triste e decepcionado com pessoas que estranhamente não rompem com velhos laços mesmo percebendo que este laço está estrangulando todo seu belo passado. Acho que devemos fazer a reflexão sobre a possibilidade ou impossibilidade de pessoas ou grupos que estão inseridas nestas listas enquanto apoiadores das causas aqui debatidas serem coerentes e éticas quando ainda se encontram apoiando pessoas grupos, partidos que são totalmente contrários as nossas lutas e que se aliam com os grandes empresários para soterrarem a luta da construção civil, afogarem florestas e populações e sepultarem a reforma agrária.
Tudo que é sólido se desmancha e logo no início do governo Lula se desmanchou minha expecativa de mudar tanta contradição por dentro.
HÁ BRAÇOS
Sinval Santos

----- Mensagem encaminhada ----
De: Abelcio Nazareno Santos Ribeiro
Para: Enviadas: Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011 0:11:54
Assunto: Dia de luto e luta


Nesta segunda dia dia 31/01, paralização de obras, ato e protesto em Belém.
O Sindiato dos Trabalhadores da Construção Civil e a CSP Conlutas, convida a todos os trabalhadores a participarem da passeata que sairá as 10h em frente do sindicato na tv 9 de janeiro px a José Malcher, com o objetivo de denunciar a sociedade os abusos das empresas da const civil em nome do lucro o massacre a que estão submetidos trabalhadores com péssimas condições e exploração, falta de segurança...
Participe!
Abel
Secretaria Executiva da CSP Conlutas




----- Mensagem encaminhada ----
De: Arroyo João Cláudio
Para: Rede Faor list google
Enviadas: Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011 2:12:05
Assunto: [faorlist] Tudo que é sólido desmancha no ar... literalmente

Professor Arroyo disse...

Caro Sinval,
Tenho pago um preço alto justamente por manter coerência com minha história e minhas convicções que, na verdade, são o projeto coletivo de uma sociedade justa e solidária, como assim entendo o socialismo.
Já na SUDAM, naquela época ADA, vivi momentos duríssimos. Para aí sim poder dizer de peito inflado que sim, sou coerente com minha história e meus valores. Valores que, agora com quase 50 anos, vejo que são muito mais produto da criação que tive de minha mãe do que, inclusive, a rigorosa formação política que tive no clandestino PRC(Partido Revolucionário Comunista) nos tempos da Ditadura Militar.

Cumpri minha tarefa como chefe de gabinete e, depois como coordenador geral de planejamento do desenvolvimento da Amazônia, sempre abrindo o diálogo do poder público com os movimentos sociais e trabalhando pesado para converter nossos sonhos em projetos econômicos concretos. Não por acaso, a sede do Fórum Paraense de Economia Solidária é lá ainda.
Lutei até o último momento para manter o projeto que havíamos construído por dois anos, até que entendendo não haver mais nenhuma condição política, pedi minha exoneração, emiti nota pública e assumi a crítica sobre o desvio ético estratégico no órgão pelo que respondo, há 5 anos, ainda hoje, 3 processos na justiça federal – sem nunca ter feito disso palanque e , talvez por isso, nunca ter recebido apoio ou solidariedade de nenhum setor nem do partido nem dos movimentos, pelo que não me queixo, apenas registro como exemplo prático do preço que pago e não me arrependo. Outros ficaram.
Rompi com o forte grupo político que fazia parte, com alegria voltei a dar aulas e fiquei quase dois anos sem ser chamado para tarefas políticas. Até que a amiga Ana Júlia, dos tempos do ME(Movimento Estudantil), em sua cota pessoal, me convidou para ser seu Chefe de Gabinete.

Depois de oito meses, e muitas tentativas de contribuir para um outro modelo de gestão sem ter sucesso, pedi para sair por não concordar com o modelo que havia se consolidado, mesmo concordando com as linhas estratégicas do modelo de desenvolvimento que havia sido escrito no programa de governo. O que pude fazer, dediquei ao movimento da Economia Solidária onde milito com maior intensidade, trabalhando pelo aperfeiçoamento da metodologia de crédito popular, pelo fortalecimento da Fábrica Esperança, pelo acesso de empreendimentos populares à licitações, entre outras.
Portanto, não sou representativo da maioria petista responsável por suas posições. No entanto, sou entusiasta do que o Governo Lula fez no plano da desconcentração de renda e retomada de um projeto de nação que avança, na medida do acúmulo de forças, sobre a educação e a valorização da juventude. Hoje, no Brasil, recuperamos um futuro. E isto, também é o PT.