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18.1.11

Erradicação da miséria, proposição ousada - PAUL SINGER






A erradicação da miséria exigirá tamanho empenho da sociedade e do governo que só a mobilização total de suas forças a tornará realidade

Não sei de qualquer governo nacional que tenha se proposto a erradicar a miséria de seu país em quatro anos de mandato. Ainda assim, nossa presidente Dilma Rousseff apresenta essa meta como a fundamental do seu governo.
Apesar de inédita, não lhe falta credibilidade, dado que o seu antecessor alcançou redução surpreendente da miséria em seus dois mandatos. Seja como for, a erradicação da miséria exigirá tal empenho da sociedade e do governo que só uma mobilização total de suas melhores forças a tornará realidade.
Miséria é pobreza tão extrema que suas vítimas frequentemente não sabem quando e nem de onde virá sua próxima refeição; moram ao relento, pois não têm trabalho e nem renda regular.
Vivem sujeitos ao acaso, como diz o povo, "ao Deus dará". Erradicar a miséria só pode significar transformar a vida dessas pessoas.
Não bastará lhes dar dinheiro para que possam adquirir ao menos o essencial à sobrevivência. Para que possam mudar de vida, será preciso que se convençam de que são capazes de se unir e juntos alcançar pelo trabalho padrões normais de vida.
A maioria dos muito pobres vive em comunidades situadas em bolsões de pobreza, e sua sobrevivência se deve em boa medida porque se ajudam mutuamente.
Esse é um instinto humano, que pode ser observado em ação em qualquer situação catastrófica: enchentes, terremotos ou incêndios.
A vida dos miseráveis é desastrosa: quase sempre correm perigo de perecer, do qual são salvos, às vezes, por uma mão amiga, que não raramente é a de outro miserável que o necessitado de hoje pode ter ajudado antes. Deixar a miséria pode representar, para a pessoa, abandonar uma normalidade cruel, mas à qual se acostumou, e se separar de companheiros de sina com os quais se sente protegido.
Para ele, a questão crucial pode ser: que alternativa de vida os que querem erradicar a miséria lhe oferecem? Possivelmente muitos dos que agora são miseráveis nem sempre o foram, mas por diversas circunstâncias perderam tudo.
Os que em consequência enlouqueceram ou ficaram dependentes de álcool ou drogas talvez não queiram voltar à vida que já tiveram, porque a perda dela lhes foi demasiado traumática.
Erradicar a miséria, do ponto de vista de seus beneficiários, é mudar profundamente suas vidas.
Para que aconteça, é indispensável que os seus beneficiários também sejam seus sujeitos, e não meros objetos; que eles possam optar por projetos que lhes exigirão empenho para conquistar um padrão normal de vida não apenas para si, mas possivelmente para uma família e uma prole.
Para tanto, será preciso que participem da elaboração dos novos projetos de vida e que recebam os recursos essenciais para realizá-lo.
Nos últimos sete anos, nós da Secretaria Nacional de Economia Solidária participamos diretamente de programas que permitiram ao governo Lula erradicar parte da miséria brasileira: o Fome Zero, a transformação de moradores de rua em recicladores de lixo organizados em cooperativas, de egressos de manicômios e penitenciárias em membros de cooperativas sociais, de trabalhadores sem terra em camponeses assentados, além de muitas outras comunidades socialmente excluídas.
Aprendemos que erradicar a pobreza é possível e, se assim o é, se torna eticamente necessário. E que serão os pobres que se redimirão, é claro que com o auxílio dos poderes públicos e dos movimentos sociais.
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PAUL SINGER, 78, é secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Foi secretário municipal do Planejamento de São Paulo (gestão Luiza Erundina).
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17.1.11

O Silêncio dos Inocentes





A medida em que as manifestações sobre o debate avaliativo sobre o PT no Pará, avança, crescem também as ressalvas que fazem em torno de um debate amplo, aberto e transparente.

A principal argumentação é a de que nenhum outro partido abre suas avaliações porque “o segredo é a alma do negócio”. Logo se só o PT se expor à sociedade, ficará fragilizado. Mas, que “segredo”?, de que “negócio” estão falando? Da política? Mas não deveria ser a política a arte do interesse público?

Um dia eu também acreditei nisso, que não poderíamos abrir o debate crítico sobre nossa prática política à sociedade porque a burguesia e suas elites poderiam aproveitar e fazer luta política para nos derrotar.

1) Derrotar a nós quem, cara pálida? Porque a prática política majoritária hoje não representa o partido no qual me filiei e pretendo continuar construindo, é só ver o que está escrito em nossos documentos de fundação e comparar com que é feito hoje. Além disso, as recentes derrotas que o PT vem colecionando não são obra dos adversários mais do que das atitudes que passamos admitir entre nós.

2) O internismo do debate sempre serviu para silenciar os militantes “pequenos” porque os “graúdos” sempre manifestaram abertamente suas posições ao seu bel prazer e interesses, nem sempre confessáveis. Isto porque sabem que, na verdade, a disputa interna é subordinada pela disputa na sociedade.

3) Estrategicamente, como gramisciano, entendo que as instituições fluem e se modificam a mercê das dinâmicas da sociedade, portanto a tendência “de dentro” é sempre a de conservar a cultura estabelecida e o status quo, exatamente no que pretendemos abalar na instituição PT. Ou seja, se pretendemos mudanças internas elas virão de fora, da sociedade. Enquanto agir como hoje age, parte importante do PT, render mais votos que a conduta ética e coerente ideologicamente com o programa do partido, internamente continuaremos também com a hegemonia daqueles.

4) Como republicano, do ponto de vista político, entendo que toda política deve ser pública para ser boa política. O debate público sobre os rumos do PT vai enfraquecer os que baixam o nível com a “fulanização” para pressionar, não para mudar as coisas, mas apenas para barganhar mais espaços na mesma lógica dada hoje. Tivemos vários momentos de debate público, inclusive com “fulanização” e tudo mais, como no início do governo Edmilson e, a nível nacional, com o Mensalão, sem que mergulhássemos em derrotas sucessivas. Ao contrário, foi exatamente a demonstração de vitalidade, dado pelo debate aberto, que nos recuperou diante da sociedade.

5) Não acho que fazer o “debate público” possa se confundir com ingenuidade. Ingenuidade é não perceber que por trás da suposta idéia de “proteger o Partido”, segundo os que defendem o internismo, está a proteção de seus próprios interesses e status.

6) Acho enfim que fazer o debate publicamente, nos termos em que nos manifestamos, contribui para a construção de uma nova cultura política na sociedade, a da Transparência. E, além disso, reforça o PT que queremos construir, aberto ao Controle Social, capaz de refletir com responsabilidade seus equívocos e, com isso, capaz de se recriar dialeticamente renovando permanentemente seus laços com a sociedade
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8.1.11

Repercussão do post “Pra quem não tem medo de ser feliz”





A seguir, das 28 manifestações que recebi, apresento apenas as que me autorizaram postar o conteúdo.

Por Rafael Teodoro

Da leitura do texto “Pra quem não tem medo de ser feliz”, destaco a seguinte passagem: "Portanto, o primeiro passo é aceitar que a derrota eleitoral não é só uma derrota política, como a que produziu uma aliança formal gigante e uma força política nanica. Esta é a derrota de um modelo de gestão política, que apartou a militância da elaboração político-estratégica, que reduziu as tendências em estruturas famintas apenas por cargos, que nos tirou do diálogo aberto com a sociedade sobre o modelo de desenvolvimento para nos colocar nas manchetes tristes dos jornais das elites."
Caro prof. Arroyo, impossível não o felicitar por essa análise. Creio que expressa exatamente o que sinto em relação à derrota (vergonhosa, frise-se) do Governo Ana Júlia nas urnas. O título de única governadora da base de apoio do presidente Lula a não se reeleger só revela a extrema incompetência com que o Governo estadual petista não soube conduzir políticas públicas, ou, quando existentes, fracassou em divulgá-las.
Infelizmente a lógica sectária de tendências predominou, tanto que a observação de "faminto por cargos" revela o quebra-pau que todos vimos em troca de um DAS, muita vez na "peixada", colocando "os seus", os "chegados", sem qualquer compromisso com as pautas da esquerda.
O PT não pode cometer o erro do maniqueísmo das tendências, que só afastam, como bem observaste, nobre professor, quadros experientes, éticos, dedicados, comprometidos com as pautas populares.
Eu mesmo sempre quis me filiar ao PT e participar mais ativamente da vida do partido. Mas desde a época do CA, quando alguns companheiros petistas tentaram me centralizar por tendência, sem dialogarem comigo, eu rejeitei essa prática antidialógica e nunca me filiei. Quem sabe agora contigo na direção do partido isso mude.


BLOCO DA ESQUERDA PETISTA PARAENSE, POR UM PARTIDO MILITANTE, DEMOCRÁTICO, DE MASSAS E SOCIALISTA!

O que ocorreu no primeiro turno refletiu também um problema político-sociológico: a ascensão material das camadas populares, proporcionada pelo governo Lula, não foi acompanhada de politização equivalente, motivo pelo qual a influência ideológica da direita, da mídia, das igrejas, das teologias da prosperidade e similares continua imensa.
Refletiu, também, uma indisposição de setores médios contra nosso governo e contra nosso Partido, cujas raízes materiais estão na política que eleva a vida dos pobres, sem tocar no ganho dos ricos. E cujas raízes ideológicas estão no conservadorismo que é historicamente hegemônico nos setores médios.

As derrotas do PT em Belém, em 2004 e 2008, e a derrota das candidaturas de Ana Júlia e de Paulo Rocha em 2010, e a vitória de Serra em Belém e em importantes municípios administrados pelo PT, têm que fazer refletir ao conjunto do partido das causas externas e internas que foram as determinantes dessas derrotas, ainda que conseguimos ampliar o número de deputados federais (3 para 4) e deputados estaduais (6 para 8), ainda que essa ampliação fosse lograda, em parte, a um custo ético e político muito grave.
A nós petistas nos corresponde realizar uma avaliação aprofundada dos avanços, das dificuldades e dos erros cometidos pelo nosso governo e pela direção estadual do partido desde 2007, entre os quais destacamos: a) não apuração das falcatruas realizadas pelos governos neoliberais do PSDB-DEM; b) tentar sustentar o governo através do tradicional “troca-troca fisiológico” na Assembléia Legislativa com os partidos conservadores, abrindo mão da governabilidade de “novo tipo”, através da mobilização e apóio social na defesa dos projetos estratégicos e estruturantes do governo, baseado na participação e controle popular. Isto é, acumulando forças para uma nova hegemonia orientada nos ideais progressistas e socialistas.
Essa situação se agravou na maioria de municípios paraenses PT quando a Casa Civil manteve ou nomeio para cargos importantes do governo a muitos dos nossos tradicionais adversários políticos, sem fazer qualquer consulta aos nossos filiados e dirigentes municipais e desrespeitando as decisões locais do partido. Ou seja, um completo e insustentável desrespeito com companheiros e companheiras que ajudaram a construir e fortalecer o PT como principal partido da esquerda no país e no Pará e a nossa vitória eleitoral em 2006.
Consideramos, contudo, que o problema principal da nossa derrota foi a falta de orientação estratégia do governo liderado por Ana Júlia e a cúpula da DS para tentar imprimir uma feição democrático-popular ao governo estadual, fazendo apenas tímidas mudanças para reverter a situação de extrema miséria em que vivem boa parte da população paraense e escassas melhoras na saúde e na educação pública.
Outro grave problema foi o tratamento dispensado pelo comando do governo (a “cúpula da DS”) às outras forças do PT, inclusive a membros ou ex-membros da sua tendência, e aos grupos da esquerda petista, tratando-nos quase como inimigos, não atendendo, não conversando, não cumprindo acordos ou tentando “comprar” os nossos militantes e agrupamentos oferecendo “empregos” no governo. Talvez um dos exemplos mais grave fosse o uso de recursos políticos (e outros...) do governo estadual por parte da cúpula da DS para apoiar a Duciomar contra a candidatura do petista Mário Cardoso à Prefeitura de Belém, e no segundo turno, para tentar “liquidar” a Priante (PMDB).

Não se preocuparam em ganhar à maioria da população para que sentisse se identificada num governo democrático-popular, que longe dessa meta, se transformou num governo anti-popular. Tentaram reprimir aos movimentos sociais e sindicatos mais ativos, Sintepp, mandaram prender lideranças do MST, esperando a aceitação da classe dominante paraense, que como sempre, prefere ser governada diretamente pelos seus representantes e não por mediadores da “classe média esclarecida”.

Para enfrentar a direita na sociedade a Câmara e Senado, no Governo estadual e na Assembléia Legislativa Paraenses e, é preciso unidade da esquerda, ou seja, das forças democrático-populares e socialistas: partidos, movimentos sociais e intelectualidade democrática. A unidade das esquerdas é essencial, ademais, para garantir que o governo Dilma seja hegemonizado pelas forças comprometidas com um desenvolvimento democrático e popular. A ala esquerda da coligação governista também deve impulsionar a luta por reformas estruturais, articulando isto com nossa luta pelo socialismo.

O PT sai do processo eleitoral nacionalmente fortalecido e enfraquecido no Pará. Contudo as nossas debilidades ideológicas, programáticas, políticas e organizativas ficaram mais uma vez evidenciadas em todo o país. As debilidades do PT possuem diversas causas, entre as quais se destaca a legislação eleitoral, que privilegia as carreiras individuais e o financiamento privado de campanhas. Um dos subprodutos disto é o fortalecimento, no interior do Partido, do social-liberalismo e do pragmatismo.
Outra das debilidades do PT é mais profunda e precisa ser dita com todas as letras: o PT corre o risco de transformar-se num partido de centro-esquerda tradicional, convencional, integrado ao establishment, atravessado pelo fisiologismo e pelo pragmatismo, afetado pela corrupção sistêmica.
Fomos nos acomodando por exemplo à prática das carreiras políticas individuais e ao sistema de financiamento privado das campanhas eleitorais. A tal ponto que muitas de nossas campanhas terceirizaram a militância, com a contratação de cabos eleitorais, havendo também acusações de que mesmo petistas “compram” votos. O resultado é o exacerbamento de todos os defeitos e vícios da democracia eleitoral burguesa.

Por tudo o que foi dito antes, a reforma política, especialmente o financiamento público e o voto em lista, não constitui um detalhe: é também uma condição de sobrevivência para o PT como partido democrático, de massas, popular e socialista.


João Guilherme

Caro Arroyo,

Parabéns pela lucidez das colocações, infelizmente a falta de dialogo e oportunidade de expressão principalmente pelas pessoas de baixa renda produzem "lideranças" motivadas mas por seus interesses pessoais deixando apenas para o discursos os interesses coletivos. Nestes dois anos e meio como servidor do Estado vários momento foram decepcionantes enquanto simpatizante de uma proposta de gestão participativa, as intervenções ditatoriais nunca me foram atraentes e vê-las presente em uma governo popular foi decepcionante, mesmo assim, acredito que a força popular seja uma estratégia fantástica de transformação social, esta foi mais uma experiencias para conhecer verdadeiras lideranças comprometidas com causas coletivas que possam superar as mazelas sociais existentes em nossa sociedade.
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3.1.11

Pra quem não tem medo de ser feliz!




(Contribuição à Avaliação PT 2010, aberta pelo Diretório Estadual junto aos militantes do Partido dos Trabalhadores)

O PT é um fenômeno democrático-popular sem precedentes, no Brasil e no mundo. O processo de profunda reestruturação que a sociedade brasileira embarcou após o período da Ditadura Militar, desde os anos 80, passou, e passa ainda, pelo PT.

Primeiro, principalmente como força de elaboração e articulação estratégica de forças sociais e políticas capazes de disputar a agenda política, polarizando lideranças dos movimentos sociais que passaram a dar uma dimensão mais transformadora às suas reivindicações cotidianas.

Em um segundo momento, principalmente como via de vazão de anseios por uma sociedade democrática, ganhando parcelas cada vez maiores da sociedade desde a promoção da transgressão da passeata e da greve, passando pela conquista da agenda de gênero, raça, sexualidade e meio ambiente, até a conquista da autonomia eleitoral pelos setores médios e populares, cravada em 2006, diante das elites e seus porta-vozes da grande mídia.

E, mais recentemente, principalmente como exercício efetivo do poder de governo na construção de um novo modelo de desenvolvimento que aponta para a desconcentração da renda e a inclusão social – que não se limita apenas à questão da renda, mas sobretudo da educação e da cultura para enfim propiciar o efetivo exercício de direitos como saúde, saneamento, moradia etc.

Mas até quando passará pelo PT, a história do Brasil moderno que se escreve, e por que?

O núcleo de elaboração estratégica desta história já não está mais no PT, está no governo. E, a referência não é o programa do PT mas o da aliança de projetos de desenvolvimento capazes de reunir as condições necessárias para sua efetivação, como exercício de poder, o que se coloca para bem além do marco partidário como um todo da coligação, não só do PT.

Vale ressaltar que neste processo, mais uma vez a cultura política petista, mais do que o partido, tem sido importante para um exercício de Estado onde as políticas Públicas ganham um grau expressivo de legitimidade o que, por si só já serve para um importante fortalecimento da democracia enquanto instituição e enquanto cultura política da nação.

O surgimento da questão do Ficha-Limpa na agenda política e social por fora do parlamento e da grande mídia é uma demonstração das possibilidades que este momento novo do Brasil oferece. É um elemento de exercício efetivo de democracia direta, participativa, que fazia parte do repertório do PT, quando propunha o Orçamento Participativo, que hoje volta à cena por fora do PT, enquanto partido.

O dramático é que na lógica do cotidiano da política a Lei do Ficha-Limpa foi um divisor de águas dentro do PT. Inúmeros são os militantes petistas que assinaram a petição e defendem a Lei como conquista para uma cultura democrática elevada acima de interesses do momento. Enquanto, ao mesmo tempo, não foram desprezíveis as manifestações de petistas que ocupam posições importantes dadas pelo partido, contra o todo ou parte da Lei do Ficha-Limpa.

Esta ambigüidade referida acima, está assentada no descolamento entre ética e a prática política no partido que defende a ética na política. Esta é a marca do dilema petista que vivemos já há algum tempo e que ainda não foi devidamente tratado, mas que se apresenta cada vez mais como incontornável. O dilema de subordinar a estratégia(o como fazer) à ética(o que se deve fazer) ou à política (o que se pode fazer).

Claro que o dilema se resolve no equilíbrio – como construir as condições para se poder fazer aquilo que tem que ser feito. Mas isto exige esforços de elaboração, criatividade e inovação, sem o que o dilema continua.

Outra macro expressão deste dilema, reflete em parte o vazio deixado pelo deslocamento do núcleo de elaboração estratégica que deixou o ambiente partidário para ocupar e se adequar, obviamente, ao espaço de governo.

O vazio a que nos referimos é exatamente o do debate e elaboração estratégica que relegou o partido ao papel de mera ferramenta instrumental no jogo das alianças entre projetos de desenvolvimento que operam no âmbito do governo, que já mencionamos. Ao mesmo tempo, revelando uma clara concepção de exercício centralizado de poder.

A ausência do debate estratégico no PT que exigia a expressão de valores ideológicos e um mínimo de coerência prática, foi levando algumas lideranças para o gueto da reles luta pela sobrevivência política que, em alguns casos emblemáticos, os agigantou eleitoralmente e os apequenou moralmente.

Como nada convence mais do que o exemplo, este comportamento não refletido, não assumido, não expressado, foi silenciosa e disfarçadamente se somando à cultura política patrimonialista da sociedade, que a tudo atribui preço em dinheiro, e foi adotado por parcelas importantes de militantes e novos militantes atraídos pelas condições que a ocupação do poder público proporciona.

Mas ledo engano supor que este processo se dá por causa da presença no espaço público, fatos isolados mas significativos são registrados bem antes, na gestão de sindicatos, entidades populares etc. Por outro lado, são inúmeros e amplamente majoritários os exemplos dos petistas que não mudaram a sua conduta moral ocupando espaços públicos de relevo. Mas aquilo que é exceção pode virar regra se não tratarmos devidamente.

E assim, o dilema que vivemos passou a dividir o foco dos petistas entre aquilo que podemos construir como parte da estratégia da construção da sociedade que almejamos e aquilo que se pode auferir como ganho imediato, de caráter político e/ou econômico, coletiva ou pessoalmente.

Esta perda de foco pulverizou nossos esforços políticos em diversas frentes sendo a de maior impacto e peso a de governo.

O PT no governo do Pará

Conquistamos a opção eleitoral da maioria dos paraenses em 2006, quando a aliança neoliberal liderada partidariamente pelo PSDB não conseguia mais esconder dos setores médios e populares a sua incapacidade em dar respostas efetivas, mesmo com o poder comunicativo que dispunha.

Além disso, a vacilação do PMDB em apresentar-se à sociedade com face própria, proporcionou à candidatura petista um apoio determinante para a vitória nas urnas.

Somou-se ainda uma conjuntura nacional onde o eleitorado, pela primeira vez, mostrou-se firmemente independente da opinião, das elites, publicada nos jornais e telejornais de encomenda. E, mesmo depois de um massacre na mídia o projeto petista crescia no eleitorado médio e popular que passou a perceber o avanço que o modelo de desenvolvimento em implantação trazia para a sociedade, mesmo sendo crítico ao episódio do “mensalão”.

Este sentimento nacional se expressou no Pará, onde também se somou à lembrança positiva da experiência do governo petista na prefeitura de Belém. Compondo um somatório de processos que desautoriza qualquer conclusão simplista visando conferir glórias a um ou outro fator.

A relação PT X Governo, no Pará, reproduziu a fórmula nacional que além da natural apartação política, institucional e operacional também separa o sentido e função do partido da elaboração estratégica do desenvolvimento da sociedade que assim, acontece apenas no espaço de governo submetida a uma lógica de forças econômicas, institucionais e jurídicas específicas.

No Pará, esta concentração da elaboração estratégica nos espaços mais restritos do governo alijou quadros experientes técnica e politicamente empobrecendo principalmente o potencial de realização estratégica em áreas cruciais como educação, saúde e infraestrutura, por exemplo.

Vale frisar que, do ponto de vista teórico, o plano de governo era de alto nível, potencialmente capaz de responder aos grandes gargalos do desenvolvimento do estado, somando na perspectiva da promoção da cidadania participativa.

No entanto, mais uma vez, o partido ficou quieto “para não causar problemas” e, mesmo no governo, a elaboração estratégica se impunha por força da institucionalidade sem se construir como pacto político efetivo entre as forças vivas que o compunham.

Os condôminos do governo, mesmo os petistas, passaram a trabalhar sem uma unidade estratégica construída, vivendo do dia-a-dia, sem uma provocação estratégica capaz de mobilizá-los, nem nas áreas fundamentais.

Mas, de volta ao dilema, é preciso frisar que a ausência da motivação estratégica é produto da cultura do não-debater, do não-refletir, do não-pensar que foi domando o mundo petista, aliás, construído em sua origem sobre o dever de questionar. E, sem este combustível, a inteligência e a criatividade foi sendo preterida em favor da obediência.

Mesmo assim, nesta colcha de retalhos, importantes saldos merecem destaque para que jamais esqueçamos que, no conjunto da obra, potencialmente, somos nós os que possuímos condições de responder estruturalmente a construção de uma sociedade amazônida moderna.

O “projeto” sintetizado pelos Parques Tecnológicos e a reconstrução do Idesp, o avanço de concepção e técnica no trato com a crucial questão territorial e a abertura na relação com os movimentos sociais merecem um acompanhamento cidadão, um exercício vivo de Controle Social para que não tenhamos retrocessos.

Portanto, o primeiro passo é aceitar que a derrota eleitoral não é só uma derrota política, como a que produziu uma aliança formal gigante e uma força política nanica. Esta é a derrota de um modelo de gestão política, que apartou a militância da elaboração político-estratégica, que reduziu as tendências em estruturas famintas apenas por cargos, que nos tirou do diálogo aberto com a sociedade sobre o modelo de desenvolvimento para nos colocar nas manchetes tristes dos jornais das elites.

Este pode ser o primeiro passo para a grande vitória de conquistarmos, não apenas governos, mas sobretudo a sociedade, a partir de nosso exemplo prático, para a construção de uma sociedade baseada na solidariedade e na autonomia do Controle Cidadão sobre o Estado.

Que venha 2012.

João Claudio Arroyo,
membro do DE PT-PA
janeiro de 2011
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23.12.10

Feliz ano novo!



Que neste ano novo nosso futuro se renove em felicidade plena...
Então nos desejo que não consigamos ficar indiferentes às crianças que encontramos abandonadas, nas ruas.

Que neste ano novo possamos ter muito conforto e paz...
Então nos desejo que sejamos seguros e fortes para dialogar e negociar com sabedoria para evitar as guerras que se apresentam no dia-a-dia.

Que neste ano novo possamos ter muita saúde...
Então nos desejo força para construirmos o equilíbrio necessário entre o corpo e a mente, entre o trabalho e o lar, entre o prazer e o respeito, entre eu e o outro.

Que neste ano novo o amor seja aquilo que mais nos faz sermos humanos...
Então nos desejo coragem para sermos verdadeiros e sinceros sem sermos duros ou agressivos, para que percebamos, na prática, que cada um só se realiza no outro.

Que neste ano novo a alegria nos visite com intensidade...
Então nos desejo muita fibra para renunciarmos aos exageros, para respeitarmos os limites, para vivermos com a responsabilidade que a liberdade exige.

Que neste ano novo as famílias, as que cada um escolher, sejam cada vez mais unidas...
Então nos desejo muita capacidade de compreender e tolerar, mas de educar e se reeducar para conviver com a diversidade e, ainda assim, construir objetivos comuns.

Que neste ano novo a sociedade encontre o caminho da superação da violência e da corrupção...
Então nos desejo a disposição necessária para pagarmos o preço da honestidade, para não furar filas, para devolver o troco que veio a mais, para recusar a vantagem indevida.

Que neste ano novo tenhamos muita prosperidade...
Então nos desejo inteligência para entender que a riqueza estável é produto do trabalho coletivo, e não do dinheiro, que superemos a exploração e vivamos em solidariedade.
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29.11.10

Unicef contra o racismo



UNICEF lança campanha contra o racismo sobre as crianças e adolescentes.

Obrigação moral, imperativo social, necessidade econômica.

Clique na palavra Unicef e veja o vídeo.
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21.11.10

Estamos, meu bem, por um triz...






Agora, a decisão final está nas mãos do Presidente Lula que irá apontar o 11º Ministro do STF que irá desempatar a votação. Se o novo Ministro não for um forte aliado anti corrupção, há um enorme risco da Ficha Limpa ser bloqueada, abrindo caminho para os políticos corruptos recém-eleitos, como Jader Barbalho e Paulo Maluf, assumirem seus cargos.

Nós não podemos deixar isto acontecer – vamos enviar mensagens urgentes para o Presidente Lula pedindo para ele respeitar a vontade de milhões de brasileiros que apoiaram a Ficha Limpa, apontando um Ministro para o STF que tenha integridade e um recorde forte contra a corrupção. Participe agora e depois encaminhe esta mensagem para todos:

http://www.avaaz.org/po/ministro_ficha_limpa/?vl

Com o fim das eleições, o Presidente Lula poderá apontar o 11º Ministro do STF a qualquer momento, sem aviso prévio, consulta ou transparência com o povo brasileiro. E quando ele escolher, não há mais volta.

Políticos “ficha suja” eleitos mês passado e interesses partidários poderosos estão fazendo de tudo para pressionar o Lula a apontar um Ministro que vote contra a constitucionalidade da lei. Se isto acontecer, Paulo Maluf e Jader Barbalho – que já teve o apelo negado – e outros candidatos corruptos poderão assumir seus cargos, dando uma pancada séria nas nossas esperanças de um futuro sem corrupção para o Brasil a partir de agora.

Mais uma vez depende de nós garantir que os nossos governantes fiquem do lado do povo e não de indivíduos e elites corruptas. Vamos inundar o Presidente Lula com milhares de mensagens pedindo para ele fazer a escolha certa, apontando um 11º ministro que seja fortemente contra a corrupção. Envie uma mensagem agora!

http://www.avaaz.org/po/ministro_ficha_limpa/?vl

Juntos nós vencemos a maior batalha que foi aprovar a Ficha Limpa no Congresso, mas ainda não acabou, até que cada político corrupto seja barrado por um Supremo Tribunal Federal justo e ético. Este é mais um importante passo para livrar o nosso país da corrupção e um exemplo inspirador do que podemos fazer quando nos unimos.

Escreva a sua mensagem pessoal para o Lula aqui: https://sistema.planalto.gov.br/falepr2/index.php

Ligue para o seu gabiente: (61) 3411.1200 (61) 3411.1201
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20.11.10

Encontro Regional Norte do Fórum Brasileiro de Economia Solidária debate a conjuntura





Uso de preconceitos na campanha eleitoral foi negativo e prejudica a cultura democrática. Apesar do posicionamento popular de Dilma, a ecosol não está no centro do modelo de desenvolvimento. Foi um avanço contra os pré conceitos a eleição de uma mulher. A II Conf de Ecosol marcou a ecosol como direito para quem não quer trabalhar assalariado. Apresentação da proposta de Lei Nacional de Ecosol foi grande avanço. Mas avanços da distribuição de renda no Brasil não passou pelo fortalecimento dos empreendimentos da ecosol. Na estruturação do governoi Dilma a tendência é a Senaes(Sec Nac de Ecosol) se manter no Min do Trab. Mas há possibilidade real da criação do Min da peq e microempresa. Ou da Senaes ir para o MDS. Mas a proposta mais promissora é transformar a Senaes em uma Sec especial da presidência. Mas isso depende de nossa capacidade de mobilização. O ideal seria um ministério do desenvolvimento territorial. Para a ecosol ocupar o centro do modelo de desenvolvimento é preciso que se fortaleça social, política e economicamente. O governo Dilma está em disputa.
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17.11.10

Lula: "Economia solidária brasileira é exemplo para o mundo"





O Brasil agora tem o primeiro Sistema de Comércio Justo e Solidário do mundo reconhecido e fomentado pelo Estado, graças ao decreto assinado pelo presidente Lula durante a reunião plenária do Conselho Nacional de Economia Solidária (CNES), realizada nesta quarta-feira (17/11) em Brasília (DF). Com ele será possível consolidar e ampliar as políticas públicas para o setor e tornar perenes as conquistas dos trabalhadores brasileiros, disse o presidente durante o seu discurso na solenidade. Na oportunidade, também foi assinado decreto instituindo o Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas.
O Sistema Nacional do Comércio Justo e Solidário é um conjunto de parâmetros a serem seguidos na execução de políticas públicas voltadas à geração de trabalho e renda por meio de ações de promoção da economia solidária e do comércio justo. Entre seus objetivos estão: apoiar processos de educação para o consumo com vistas à adoção de hábitos sustentáveis e à organização dos consumidores para a compra dos produtos e serviços do comércio justo e solidário; fortalecer uma identidade nacional de comércio justo e solidário, por meio da difusão do seu conceito e do exercício das práticas que lhe são inerentes; e favorecer a prática do preço justo para quem produz, comercializa e consome.
A economia solidária, afirma o presidente, é uma alternativa para a geração de emprego e renda, além de importante saída para incentivar o País a adotar hábitos sustentáveis de comércio, que seja justo e solidário. O Brasil já é referência mundial no assunto desde 2003, quando foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária. E a ação só se tornou bem sucedida, afirmou Lula, porque o governo instituiu um diálogo permanente com a sociedade civil para construir as políticas públicas necessárias.
Valeu a pena todo o esforço realizado por este governo para fortalecer a economia solidária no Brasil. Mas é preciso reconhecer que ainda há muito a ser feito. A atuação desse Conselho Nacional de Economia Solidária e a realização periódica das Conferências Nacionais certamente vão continuar garantindo as condições para que trabalhadores e trabalhadoras do País possam construir uma rede de economia solidária cada vez mais sólida e sustentável.
Lula explicou, ainda, que a grande aceitação de seu governo por parte dos brasileiros se deu por iniciativas como essa, que beneficiam diretamente a população, e pela relação de honestidade que estabelecida com a sociedade desde o início do governo. Aos trabalhadores do comércio solidário, Lula agradeceu a crença em seu governo e pediu para que continuem acreditando, pois, segundo ele, a presidente eleita, Dilma Rousseff, "fará mais e melhor" a partir de janeiro de 2011.
Na hora em que a gente estabelece essa relação verdadeira, em que eu olho nos olhos de vocês e vejo que vocês não estão mentindo para mim e vocês olham em meus olhos e veem que eu não estou mentindo para vocês, está consolidada a coisa mais perfeita de nossa passagem pela Terra, que é a confiança entre os seres humanos. Porque no fundo, no fundo, só vale a pena ser presidente da República se as pessoas que te elegeram confiarem em você.

Fonte: Blog do Planalto
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16.11.10

Análise de Conjuntura e Economia Solidária para 2011



O movimento por uma Economia Solidária
e a Conjuntura 2010/2011

Para ler a conjuntura, precisamos estar atentos para entender que “A novidade crucial deste momento histórico é que as crises necessitam ser enfrentadas simultaneamente. As crises econômica, energética, alimentar, climática, do trabalho etc, não estão isoladas. A elas se acrescenta uma crise de caráter ético-cultural e todas se manifestam de forma sinérgica, mesmo se, às vezes, isso não pareça tão evidente. Percebe-se, e cada vez com maior evidência, um encadeamento das crises. Já não se pode mais dar centralidade apenas à economia para, depois, ocupar-se das outras crises. A questão central diz respeito ao esgotamento do modelo de desenvolvimento criado e incrementado na sociedade industrial, baseado em uma visão linear, progressiva, infinita e redutora de desenvolvimento, e que tem no consumo desenfreado a sua mola propulsora. A crença no crescimento econômico e sua linearidade se romperam.( Ir. Delci Franzen – CNBB)”. Portanto, é com este enfoque que apresentamos a análise a seguir.

Análise internacional

A “guerra cambial” que marca o cenário mundial nesta passagem de 2010 para 2011 anuncia mais um degrau abaixo que o centro do sistema capitalista desce na sua tentativa de reverter o processo de perda de valor da economia, na medida em que se descola do trabalho e da vida real para se sustentar cada vez mais do capital fictício da especulação financeira.

Quando decide imprimir papel, fabricando 600 bilhões de dólares sem qualquer lastro produtivo, o Banco Central americano – entidade superior às instituições democrática daquele país, que atende pela sugestiva sigla FED – na verdade, repete a receita de desestabilizar tudo para se manter em pé.

Se não vejamos, se ocorrer o fabuloso derrame de dólares, conforme anunciado, ao mesmo tempo que aquecerá a economia americana de maneira artificial, produzirá uma acelerada desvalorização da moeda americana, que como foi imposta com moeda universal depois da segunda guerra mundial, possui ainda forte impacto no mercado mundial.

A queda do dólar facilitará a exportação de produtos americanos revertendo bruscamente o fluxo comercial mundial com particular impacto negativo nas economias “emergentes” como o Brasil que possuem suas exportações como um dos pilares de seu desenvolvimento econômico.

Com esta reversão a tendência é de aumento das importações e maior competitividade interna que a princípio pode servir de estímulo, mas se chegar ao ponto da substituição do consumo do produto nacional pelo exportado, tenderá ao fechamento de postos de trabalho produtivo, perda de iniciativa empreendedora e consequentemente ao desemprego, perda de poder aquisitivo dos trabalhadores, concentração da renda e todo o roteiro que vitimou nossa história recente e que lutamos muito para começar a reescrevê-la nos últimos 8 anos.

Este possível macrocenário econômico coloca o desafio de ampliar as bases de sustentação de um desenvolvimento econômico com soberania política e inclusão social.

Do ponto de vista político, o filósofo português, Boaventura de Sousa Santos, em seu artigo “Respirar é possível” fez uma interessante síntese do impacto das eleições brasileiras no centro do sistema mundial.

Boaventura afirma que “As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada”. Enquanto a Europa vive uma grave crise, que ameaça “liquidar o núcleo duro da sua identidade”, o modelo social europeu e a social-democracia, o Brasil reduziu significativamente a pobreza fundado na idéia básica de combinar “aumentos de produtividade econômica com aumentos de proteção social.”
Para o governo dos EUA, Boaventura define que “o Brasil de Lula foi um parceiro relutante, desconcertante. “Combinou uma política econômica aceitável com uma política externa que não se alinha integralmente com as decisões de Washington.”
Além de alavancar sua soberania pagando a, até então impagável, dívida externa junto ao FMI, o governo Lula marcou fortemente sua autonomia frente ao poderoso governo americano quando decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do setor petroleiro, “depois de ter sobrevivido a um golpe em que os EUA estiveram envolvidos”.
Na mesma linha, o Brasil manifestou-se veementemente contra o bloqueio a Cuba; criou relações de confiança com governos democraticamente eleitos, mas considerados hostis aos EUA -Bolívia e Equador-, e defendeu-os de tentativas de golpes da direita, em 2008 e em 2010.”
Fazendo avançar enormemente o Mercosul, o governo Lula também promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico como no político e militar, à revelia dos EUA, e, como qualificou Boaventura: “ousadia das ousadias, procurou relacionamento independente com o governo "terrorista" do Irã”.
Mas Boaventura alerta que a pretensão imperialista continua. “O objetivo é sempre o mesmo: promover governos totalmente alinhados. E as recompensas pelo alinhamento total são hoje maiores que antes. A obsessão de Serra com o narcotráfico na Bolívia (um ator secundaríssimo) era o sinal do desejo de alinhamento.”
O sonho de um Brasil alinhado com Washington “provocaria, como efeito dominó, a queda dos outros governos não alinhados do subcontinente”. Para os governos "desalinhados", como chama Boaventura, “para as classes e movimentos sociais que os levaram democraticamente ao poder, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança: há espaço para política regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de nacionalismo, que aposta em mais redistribuição da riqueza coletiva”, conclui o escritor português.
A conjuntura nacional
Os projetos de desenvolvimento e de sociedade que estiveram em disputa nas eleições de 2010 continuarão a disputa em outras arenas. A eleição é apenas uma das arenas da disputa política entre Projetos de Sociedade que lutam para obter a legitimidade da nação e conquistar mais ferramentas para sua efetivação.
Ou seja, a disputa entre Projetos de Sociedade fazem parte do cotidiano da nação onde as eleições, de 4 em 4 anos, embora muito importante pelo peso do resultado no jogo da disputa, é apenas uma das arenas desta mesma disputa, em sua dimensão política.

Nesta mesma dimensão política, a disputa continuará na arena jurídica, institucional, das organizações da sociedade, nos movimentos sociais e todas as possibilidades de influência sobre as decisões que incidem sobre os fundos públicos, ou melhor, sobre o que fazer com o dinheiro público que a nação arrecada em impostos e outras fontes através do Estado. No entanto, há ainda outras dimensões fundamentais como a econômica e a cultural. Sem perder de vista que estas 3 dimensões(política, econômica e cultural) fazem parte de uma única disputa, porém complexa e multifacetada.

Na verdade, a conquista de postos no executivo e no legislativo fazem parte de uma estratégia maior para que projetos de Sociedade, de Estado e de Desenvolvimento, acumulem instrumentos para colocar em prática suas operações e metas.

É preciso compreender que os Projetos de Sociedade são constituídos pelo conjunto de propostas de solução para os problemas vividos pela população. A compreensão de qual é a melhor solução surge da identidade entre pessoas e segmentos da nação em torno de sua visão de mundo ou filosofia, de suas convicções existenciais ou religiosas, do conjunto de informações técnicas e tecnológicas que tenham etc.

Por exemplo, uma questão ideológica que se coloca historicamente como um dos maiores “divisores de águas”, posições políticas e estratégias econômicas, entre as pessoas, é a noção de igualdade entre os seres humanos.

Os que entendem que todos os seres humanos são iguais em espécie, sem exceção, entendem que estes devem possuir os mesmos direitos e oportunidades, admitindo diferenças apenas oriundas pelas escolhas próprias e livres de cada um destes mesmos seres humanos. Já os que admitem que os seres humanos não são iguais entre si, por determinismo racial, condição de gênero, de renda ou desígnio divino, pensam em soluções onde os direitos e as oportunidades não são as mesmas entre as pessoas, absorvendo as desigualdades sociais como um elementos estruturante da sociedade.

Para se ter uma noção da complexidade da disputa de Projetos de Sociedade entre arenas e dimensões, hoje, na maioria dos países, as constituições rezam a igualdade da lei para todos. Gerando a conclusão formal de que daí os direitos são iguais para todos. No entanto, se incorporarmos a dimensão econômica, veremos que a diferença de condição de renda, por exemplo, é determinante sobre o exercício efetivo dos direitos. Em caso de dúvida reflita sobre as chances de um rico e de um pobre efetivarem seus direitos à saúde de qualidade, à educação de qualidade, à um trabalho digno, à segurança e por aí vai...

Ou seja, aqueles que pensam o Projeto de Sociedade a partir da igualdade, entre os seres humanos, conquistaram maior expressão de suas idéias na formalidade da lei, na dimensão política. No entanto, na dimensão econômica, aqueles que admitem as desigualdades sociais como estruturante de seu Projeto de Sociedade, conseguem reverter o efetivo gozo dos direitos em pé de igualdade entre seres humanos impondo a diferenciação no acesso aos direitos fundamentais proporcionais à diferença da condição de renda entre eles. Recorrendo inclusive à dimensão cultural desta disputa, que faz com que um rico e um pobre sejam diferenciados quando entram em um estabelecimento econômico ou repartição pública.

Historicamente, os que pensam o mundo a partir da igualdade são qualificados politicamente como “de esquerda”, e os que admitem as desigualdades como elemento estruturante, são qualificados como “de direita”. No entanto, como o pragmatismo tem sobrepujado de muito a reflexão ideológica, hoje esta referência tem sido, no mínimo, confusa.
Por sua importância estrutural na economia, tomemos como exemplo a distribuição funcional da renda, ou seja, a distribuição entre trabalho e capital, calculada pelo IBGE com base nas Contas Nacionais anuais. Os números apurados revelam que a partir de 1995(Governo FHC = Projeto Liberal), houve uma trajetória de queda do fator trabalho contínua até 2004, quando alcançou 58% do PIB. A partir de 2005(Governo Lula = Projeto Social), a curva se tornou ascendente, em todos os anos, de forma consecutiva chegando a 59,4% em 2007, sendo estimada pelo IPEA em 2009, em 62,3%. Estes números dizem que no Projeto Social, o peso do trabalho tende a crescer frente ao peso do capital, invertendo a tendência do Projeto Liberal.
Ou seja, a geração de oportunidades de trabalho, o aumento da média dos salários e a valoração de segmentos de trabalhadores antes marginalizados e não reconhecidos é uma ênfase no Projeto Social, diminuindo as desigualdades e suas conseqüências como o acesso a direitos básicos. Enquanto que no Projeto Liberal a ênfase é a melhora das condições de lucro e demais remunerações do capital, o que, em todo o mundo, tem acirrado as desigualdades.
Os projetos também se evidenciam nas medidas práticas do cotidiano político. As causas da renda favorável aos trabalhadores nos últimos anos se deu porque o salário mínimo real médio, a preços de hoje, na fase de queda(Projeto Liberal), era de R$ 292,53. Na fase de recuperação(Projeto Social), foi de R$ 426,85. A taxa média real básica de juros nos anos 1995-2004 foi de 14,8%, enquanto nos anos 2005-2009 foi de 8,9%. Na fase de queda, a geração de empregos com carteira assinada, em média por ano, era de 344 mil postos de trabalho. Na fase de recuperação, foi de 1,31 milhão de postos.
No entanto, uma análise presidida pela razão concluiria que as medidas mostram que o movimento socioeconômico brasileiro, pelo Projeto Social caminha em direção ao desenvolvimento sustentável. Contudo, “indicam também que a caminhada começou faz pouco tempo e ainda está longe do ponto ideal de chegada” conforme conclui o professor João Sicsú do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Como anunciam companheiros de movimentos sociais amazônicos “Os projetos Belo Monte, Complexo Madeira e o anúncio do Complexo Tapajós, Transposição do rio São Francisco, Agrocombustíveis, Programa Nuclear, Pré-sal, são exemplo da retomada de um desenvolvimentismo expansionista da época dos militares, aliás, alguns projetos nasceram naquela época. Todos eles carecem da visão ecológica e ignoram a complexidade. Se a produção de energia é necessária ao desenvolvimento do país, a pergunta que fica é se esses projetos de grande risco e agressão ao meio ambiente a médio e longo prazo não se votarão como um bumerangue contra o próprio desenvolvimento humano integral e ecológico. E a objeção levantada por cientistas, ecologistas e os movimentos sociais, especialmente os novos movimentos nascidos pela agressão com que os projetos são implantados(CNBB)”. Ou seja, há ainda muitos elementos para se tomar o futuro governo de Dilma Roussef como um governo em disputa.
Ainda hoje, 70% do PIB é devido à remuneração do capital como o lucro e apenas 30% relativo à remuneração do trabalho. Portanto, a distribuição de renda que temos deve ser festejada como tendência, mas ainda há muito que caminhar como realidade.
Realidade que às vezes é mascarada pelos números que apontam para o crescimento da classe C que chega a 40% da população, camada que ingressou em uma faixa de renda que lhe incluiu no mercado de consumo. Acontece que aumento da capacidade de consumo não significa necessariamente melhora definitiva da qualidade de vida.
“Qualidade de vida” é um conceito que extrapola a noção econômica de “aumento da renda” porque é relativo a valores que não têm preço, é relativo ao ganho que só uma família estruturada e amorosa pode dar, que só a educação de qualidade, a saúde, a segurança, habitação digna, a segurança e o saneamento podem garantir. E essas são conquistas políticas públicas de dimensão cultural, que definem o padrão e o nível do ambiente em que as pessoas vivem e convivem.
Portanto, é verdade que a distribuição da renda e do aumento do consumo apontam para uma sociedade economicamente mais justa, conquista estratégica que não podemos abrir mão em momento algum. Mas, também é verdade que parte importante da melhoria de renda é devido a um ganho de produtividade absoluta que obriga as pessoas a trabalharem em média 10 a 12 horas por dia para alcançar o padrão de consumo, apresentado pela mídia, como de sucesso.
O Governo Dilma, assim como o de Lula ou qualquer outro, estará em permanente disputa. É como acompanhar o Círio de N.Sra. de Nazaré na corda. Se você não empurrar pode acabar esmagado. O equilíbrio, quase milagroso, se dá exatamente porque todos se empurram de um jeito que caibam todos.
Na política é um pouco mais complicado porque há os que querem a “corda” e a “santa” só para eles. Ou seja, se a gente não empurrar, se a gente não fizer pressão, poderemos ser esmagados e ficar de fora do jogo.
Agora mesmo, as negociações sobre os espaços do governo federal, estadual, os termos da disputa para as prefeituras estão sendo negociados. Quem não se credenciou social e politicamente ficou de fora. Mas este não é o único momento do jogo político.
E, fazer política, inclusive partidariamente, vem se consolidando na vida nacional na medida em que se consolida a cultura democrática no Brasil. No entanto, claramente, estamos diante da necessidade do aperfeiçoamento e aprofundamento da democracia brasileira.
Nesta perspectiva colocaram-se na disputa duas tendências importantes. A primeira diz respeito à percepção de que se a democracia não avançar para se constituir, na prática, como democracia econômica, para reduzir-se apenas a sua dimensão eleitoral, cairá na mera formalidade. E, a segunda tendência que se constata é a do avanço da sociedade na direção de criar mecanismos e, até instituições, que materializem a participação da sociedade no dia-a-dia das decisões de interesse público, e não apenas de 4 em 4 anos nas eleições. É o avanço do Controle Social sobre o Estado, em todas as suas instâncias(legislativo, judiciário e executivo), os governos em particular.
Economia solidária

É surpreendente o avanço das práticas de economia solidária e de sua articulação. Presente nas cidades e no campo, ela aperfeiçoa a cooperação, a autogestão, a solidariedade e a ação econômica que gera, ao mesmo tempo, renda e bem viver. A 1ª Conferência Nacional de Economia Solidária em 2006, mobilizando mais de 15 mil pessoas nas várias etapas de sua realização. A 2ª Conferência reuniu mais de 20 mil e aconteceu no momento em que o governo federal, acompanhando as demandas do movimento, começava a liberar o maior volume de recursos para a ecosol, através dos projetos aprovados nos editais, como jamais se viu no Brasil.
Ou seja, ao mesmo tempo em que a nação passa por um momento de redistribuição da renda, fortalecendo setores médios a partir da ascensão de setores antes empobrecidos, a Economia Solidária goza de oportunidades imperdíveis mas diante das quais precisamos nos superar para alcançar nossos objetivos.
No Pará, contabilizamos pelo menos 8 projetos em execução, sem contar os que possuem financiamento não-governamental. Projetos que possuem recursos financeiros e humanos capazes de fortalecer os empreendimentos de ecosol e sua organização tanto como movimento quanto como estrutura institucional e política.
Mesmo com a perda do governo popular, que criou o departamento de Economia Solidária estadual, sancionou a Lei Estadual e implantou o Conselho Estadual, teremos em 2011, condições de manter a Economia Solidária na agenda publica, desde que tenhamos a capacidade de articular as ferramentas e potencialidades que já possuímos, mas ainda isoladas nos âmbitos de cada entidade executora de projeto.
Neste 2011, mais do que nunca será necessário exercitarmos com a maior grandeza possível, nossa capacidade de solidariedade prática e objetiva. Só depende de nós.
Conclusão
Este é, então, o “tempo oportuno”, isto é, o tempo de tomada de decisão, de comprometimento com a construção de outra civilização, que está a caminho. A dúvida pode tornar-se mãe de novos conhecimentos, de nova atenção aos sinais dos tempos; nunca deve servir de justificativa para desânimos, indiferenças. Por isso, diante da complexidade da realidade em que vivemos, a atitude humanizadora é a que nos mantém abertos à busca comum de novas luzes sobre o que ameaça a vida e sobre o que a defende e promove. Nesta perspectiva construímos o Brasil e o Pará que queremos(CNBB).
Fórum Paraense de Economia Solidária
Belém, 16 de novembro de 2010
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3.11.10

Eleições 2010: Pontos para um aprendizado




De tudo o que se tem escrito sobre as eleições 2010, percebemos que há dois pontos de partida das análises, pontos reveladores da disposição do autor. Uns, a grande maioria, se esforçam por explicar o poder. Outros, em número bem menor, em exercê-lo. Proponho que façamos este debate com a honestidade dos primeiros e a disposição dos que estão dispostos e determinados a participar, com autonomia, da política.

Entre uns e outros, um desafio ético. Como revelar as verdadeiras motivações que hoje fazem o poder, o que exige um certo distanciamento do mesmo, sem abrir mão da própria cidadania que pressupõe o autor como mais um sujeito participante do processo político.

Diante do dilema, tentaremos pontuar questões factuais, mas sem comprometer em nenhum momento a clareza de nossa disposição em sermos protagonistas de iniciativas estratégicas que nos coloquem como alternativa de programa e prática política na Sociedade.

Acho bem mais do que pedras nas mãos,
Dos que vivem calados, pendurados no tempo
Esquecendo os momentos, na fundura do poço
Na garganta do fosso, na voz de um cantador
(A terceira lâmina - Zé Ramalho)

1. Como gramsciano, concebo o debate da cultura política brasileira o ponto central a ser abordado, já que as estratégias políticas surgem daí e os programas e projetos ideológicos revelam o seu dinamismo e suas possibilidades. No entanto, a conjuntura também é uma observação obrigatória porque desenha o ambiente no qual os cenários irão descortinando a presença viva e ação intencionada dos atores.

2. Como diz Hamilton Pereira, “o PT antes de ser um fato político é um acontecimento cultural” o que reforça nossa perspectiva de análise.

3. A eleição da primeira mulher presidenta coleciona mais um tabu quebrado desde que o PT eclodiu no cenário político nacional há 30 anos quando o projeto conservador do status quo pré-republicano brasileiro entrou em descenso sistemático juntamente com a ditadura militar.

4. Período em que se firmaram as bases sociais de um projeto popular-republicano cujas sementes brotaram com os tenentes e a Coluna Prestes na década de 30, a partir do que a República, no Brasil, finalmente avançou para além da institucionalidade conquistada em 1889.

5. Portanto, estamos testemunhando uma etapa de um longo processo, com marchas e contra-marchas, em que novos segmentos sociais e novas elites entram no jogo político com poder crescente, trazendo para o palco sua cultura que passa a compor o somatório de vetores que produzem as resultantes que se tornam visíveis na política em momentos específicos e eventos como as eleições.

6. Em 2010, estamos assistindo a um novo anúncio dos setores populares da sociedade. Em termos de renda, setores pertencentes às classes B, C e D principalmente. Ao mesmo tempo em que percebem o jogo político ainda majoritariamente influenciados pela tradição das relações assistencialistas, de vários tipos, já indicam que distinguem as políticas públicas que os colocam como beneficiários centrais daquelas que são claramente voltadas para setores do grande capital e suas cortes ideológicas, hoje, destacadamente ‘entrincheiradas’ nos grandes meios de comunicação.

7. Ainda é muito forte nos resultados das eleições proporcionais, o assistencialismo. A manipulação eleitoreira de estruturas, e benefícios que deveriam ser públicos, possui muito maior eficácia do que a polarização de opinião, práticas republicanas e projetos de sociedade.

8. O desencanto com a prática política dos “políticos”se generalizou e se revelou com o distanciamento dos setores mais intelectualizados e com a frieza e venalidade dos setores mais empobrecidos, porém atentos.

9. Já na eleição majoritária, particularmente para presidente, onde as decisões são mais capitais para o modelo de desenvolvimento, o posicionamento tendeu à percepção daquilo que ativou o dinamismo da economia, abriu novas oportunidades e apontou para um maior inclusão da sociedade brasileira.

10. Dima venceu em Minas e no Rio. Perdeu por pouco mais de 1 milhão em São Paulo, quando os tucanos pretendiam uma diferença de 5 milhões, o correndo o mesmo no Sul. Já no NE e NO obteve votação maciça.

11. Consideramos que o efeito devastador da recuperação das motivações e efeitos da privatização e da submissão ao receituário neoliberal, no segundo turno, foi capaz de reverter o irresponsável recurso ao discurso religioso perpetrado pelos conservadores.

12. Portanto, pela via da percepção das políticas públicas talvez esteja em maturação uma percepção mais rebuscada em torno dos projetos de sociedade em disputa no Brasil, seus agentes, estratégias etc. Mas claro que isto apenas se estabelecerá como tendência se esta for uma ação incluída no repertório estratégico de segmentos políticos que se identificarem com esta perspectiva, porque política mesmo é o que se faz entre uma eleição e outra.

13. A questão da “Ficha Limpa”, por exemplo, se coloca nesta mesma perspectiva de republicanização da política. Mostrou o que se pode fazer de mobilização social e institucional pela internet a partir da identificação e tradução de um clamor da sociedade em atitude prática.

14. Curiosamente, foi capaz de se utilizar, talvez por acaso, da própria lógica que combate para entrar em vigor. Foi aprovada no parlamento por mera covardia dos que não quiseram assumir suas verdadeiras convicções e, só entrou em vigor(até agora) porque a partidarização da suprema corte do país fez com que a decisão fosse inviabilizada. Mas enfim, avançamos.

15. Portanto, as eleições de 2010 sinalizam para o aprofundamento de um projeto de sociedade que tende a ampliar sua inclusão social na economia assim como tende a avançar o processo de republicanização do Estado. No entanto, a velocidade e a qualidade deste processo ainda estão em disputa.

No Pará

16. No plano estadual, a eleição majoritária revelou duas questões fundamentais que destaco como autocrítica: 1) Não fomos capazes de comunicar o “projeto”, traduzindo-o, diferenciando-o dos conservadores. Não qualificamos a disputa, e num plano mais rebaixado nos tornamos vulneráveis aos nossos próprios erros de gestão. 2) Mesmo tendo um programa, e realizações, muito importante estrategicamente para a constituição de uma nova base socioeconômica no Pará, perdemos para nós mesmos quando não soubemos “fazer política” identificando e qualificando aliados político-partidários de fato dispostos a construir uma relação duradoura. Não demos o tratamento adequado aos aliados, não tivemos uma correta leitura da correlação de forças e ficamos reféns de setores que arrancaram benefícios os 4 anos mas que não se comprometeram em nos acompanhar nas eleições.

17. Também não se construiu um diálogo qualificado com os movimentos sociais populares e a militância de esquerda, que sem qualquer motivação ideológica, cuidaram dos interesses corporativistas, quando não apenas pessoais.

18. Fomos um governo que trabalhou muito, atendeu muito mas aborreceu muito as pessoas, inclusive dentro do próprio PT, com a forma de conduzir a gestão do cotidiano.

19. O crescimento do PT no parlamento estadual e federal, mostra que nem toda força petista conseguiu, por qualquer motivo, refletir sua força na disputa proporcional na disputa majoritária.



Perspectivas estratégicas

20. O pior que pode acontecer é continuarmos, como partido, a nos manter distantes de qualquer análise crítica do processo já que a única coisa que não podemos perder é a lição.

21. Mesmo no plano nacional, não é porque tivemos sucesso eleitoral, que devemos deixar de refletir sobre a natureza do processo de escolha de nossa candidata e suas conseqüências prováveis na cultura petista.

22. No geral, teremos a manutenção da tendência a institucionalização das disputas políticas, ou seja, os setores e grupos políticos que não ocuparem espaços institucionais terão baixa eficácia política. O que não quer dizer que deva se abandonar a construção de iniciativas sociais autônomas e inovadoras, diretamente no seio da Sociedade.

23. Por exemplo, é muito importante investir na Economia Solidária como prática de vida na esfera privada. Mas tendo a clareza de que esta prática só se consolidará se for apoiada por políticas públicas, o que demanda fundos públicos e estes, por sua vez, demandam que sujeitos políticos com esta identidade ocupem espaços decisórios públicos com legitimidade.

24. No plano federal, mesmo resguardando a importância e o lugar estratégico central da gestão econômica stritu sensu tem se enfatizado o aprofundamento da componente social no novo governo, já com o anúncio da prioridade para saúde e segurança, além da continuidade firme das políticas de distribuição de renda.

25. No plano estadual, estamos diante de “mais do mesmo”. Não visualizamos novidades. Os conservadores não apresentaram nenhuma inovação política. O que ratifica que perdemos para nós mesmos.

26. As lideranças de esquerda que antes ainda mantinham o estado na pauta do governo federal, agora estão enfraquecidas. Vamos precisar de mais e melhores interlocutores para potencializarmos as oportunidades que permanecem ao alcance na perspectiva de uma republicanização de caráter popular no Brasil.

27. A alternativa Marina é importante e veio para ficar, mas talvez não para ganhar. É uma incógnita se será capaz de dar uma feição programática própria para o PV diante de práticas políticas tão diversas.

28. No Pará, veremos mais uma vez uma recomposição fisiológica das forças político-partidárias. Nenhuma novidade, o que inclui a perseguição ferrenha dos opositores que estiverem no campo de alcance do aparelho público e a constante tentativa de capitalizar diante da platéia os investimentos federais enquanto, na verdade, trabalham para reverter os efeitos das políticas distributivas.

29. Assim como quando perdemos a eleição para prefeito, veremos mais uma vez fortes sinais de fragilização dos movimentos sociais populares, das ONGs e outras expressões de militância de esquerda livre que nos sustentou na oposição.

30. Contudo, para os que ainda sonham e lutam, a construção simplesmente continua. E, o melhor caminho agora, seria o debate propositivo.

Acho que os anos irão se passar,
Com aquela certeza que teremos no olho,
Novamente a idéia de sairmos do poço,
da fundura do fosso, na voz de um cantador.
(A terceira Lâmina - Zé Ramalho)
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26.10.10

Para entender a diferença entre os Projetos que disputam o Brasil nestas eleições vejam o vídeo



A eleição é apenas uma das arenas da disputa política entre Projetos de Sociedade que lutam para obter a legitimidade da nação e conquistar mais ferramentas para sua efetivação.

Ou seja, a disputa entre Projetos de Sociedade fazem parte do cotidiano da nação onde a eleição, de 4 em 4 anos, embora muito importante pelo peso do resultado no jogo da disputa, é apenas uma das arenas desta mesma disputa, em sua dimensão política.

Nesta mesma dimensão política, a disputa continuará na arena jurídica, institucional, das organizações da sociedade, nos movimentos sociais e todas as possibilidades de influência sobre as decisões que incidem sobre os fundos públicos, ou melhor, sobre o que fazer com o dinheiro público que a nação arrecada em impostos e outras fontes através do Estado.

No entanto, há ainda outras dimensões fundamentais como a econômica e a cultural. Sem perder de vista que estas 3 dimensões(política, econômica e cultural) fazem parte de uma única disputa, porém complexa e multifacetada.

Na verdade, a conquista de postos no executivo e no legislativo fazem parte de uma estratégia maior para que projetos de Sociedade, de Estado e de Desenvolvimento, acumulem instrumentos para colocar em prática suas operações e metas. É preciso compreender que os Projetos de Sociedade são constituídos pelo conjunto de propostas de solução para os problemas vividos pela população.

A compreensão de qual é a melhor solução surge da identidade entre pessoas e segmentos da nação em torno de sua visão de mundo ou filosofia, de suas convicções existenciais ou religiosas, do conjunto de informações técnicas e tecnológicas que tenham etc. Por exemplo, uma questão ideológica que se coloca historicamente como um dos maiores “divisores de águas”, posições políticas e estratégias econômicas, entre as pessoas, é a noção de igualdade entre os seres humanos.

Os que entendem que todos os seres humanos são iguais em espécie, sem exceção, entendem que estes devem possuir os mesmos direitos e oportunidades, admitindo diferenças apenas oriundas pelas escolhas próprias e livres de cada um destes mesmos seres humanos.

Já os que admitem que os seres humanos não são iguais entre si, por determinismo racial, condição de gênero, de renda ou desígnio divino, pensam em soluções onde os direitos e as oportunidades não são as mesmas entre as pessoas, absorvendo as desigualdades sociais como um elementos estruturante da sociedade.

Para se ter uma noção da complexidade da disputa de Projetos de Sociedade entre arenas e dimensões, hoje, na maioria dos países, as constituições rezam a igualdade da lei para todos. Gerando a conclusão formal de que daí os direitos são iguais para todos. No entanto, se incorporarmos a dimensão econômica, veremos que a diferença de condição de renda, por exemplo, é determinante sobre o exercício efetivo dos direitos. Em caso de dúvida reflita sobre as chances de um rico e de um pobre efetivarem seus direitos à saúde de qualidade, à educação de qualidade, à um trabalho digno, à segurança e por aí vai...

Ou seja, aqueles que pensam o Projeto de Sociedade a partir da igualdade, entre os seres humanos, conquistaram maior expressão de suas idéias na formalidade da lei, na dimensão política. No entanto, na dimensão econômica, aqueles que admitem as desigualdades sociais como estruturante de seu Projeto de Sociedade, conseguem reverter o efetivo gozo dos direitos em pé de igualdade entre seres humanos impondo a diferenciação no acesso aos direitos fundamentais proporcional à diferença da condição de renda entre eles. Recorrendo inclusive à dimensão cultural desta disputa, que faz com que um rico e um pobre sejam diferenciados quando entram em um estabelecimento econômico ou repartição pública.

Históricamente, os que pensam o mundo a partir da igualdade são qualificados politicamente como “de esquerda”, e os que admitem as desigualdades como elemento estruturante, são qualificados como “de direita”. No entanto, como o pragmatismo tem sobrepujado de muito a reflexão ideológica, hoje esta referência tem sido, no mínimo, confusa.

Vejam no vídeo abaixo o contexto atual da disputa de Projetos de Sociedade que vivemos.

http://www.youtube.com/watch?v=Ig9pE6qwzxw
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23.10.10

3 maneiras de se divertir com coisa séria




1)joguinho para relaxar nesse fim de semana.(bom)

http://www.gmfgames.com/dilma/


2)Piadinhas infames que sairam no twitter sobre o caso serrojas.

1. ♫♫Vou amassar, mas não vou acertar agora..♫ Vou amassar, mas não vou acertar agora..♫se segura malandro, pra tomografar a cabeça tem hora. ♫
2. Um antepassado meu, uma vez foi atirado contra a cabeça do Plínio. Era a Bolinha de Papiro.
3. Joquempô, lembrem-se: Pedra vence tesoura. Tesoura vence papel. Papel vence serra. E Serra Vence Oscar!!
4. Serra ficou de repouso 24 horas por causa do meu primo Atestado Médico.
5. @Bolinha_depapel não gosta de Serra, porque foi uma Serra que matou papai Eucalipto.
6. A @bolinha_dePapel podia falar para seu primo papel jornal ser menos tendencioso nas eleições.
7. Não conheço Paulo Preto. Quem é amigo dele é meu primo Papel Carbono.
8. E não me venham com ameaças... tenho um irmão Papelão q faz jiu-jitsu, e outro que é traficante, o Papelote.
9. Soninha, lembre-se: Enrolar Bolinha_dePapell não dá larica!
10. Aos meus detratores, aviso que meu passado é uma folha em branco!!
11. Jogaram bexigas d'agua ?? vou mandar pra lá minhas primas toalhas de papel.
12. @Bolinha_dePapel Você quer um Habeas Corpus em Chamex aA4 ou A3?
13. Ñ sou petista. Sou Chamex PH neutro
14. Mas teu primo papel de seda nao morreu queimado nos dedos do Gabeira?
15. Fernando Gabeira fez curso com meu primo Papel de Parede, pra ficar com cara de paisagem do lado do Serra.
16. Veja desta semana tras entrevista com vizinha de bolinha, que afirma: "Ela sempre foi petista".
17. Veja mente. Sempre fui Chamex!
18. “O #serrarojas é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A bolinha de papel que deveras sente”
19. Gente, me ajudem!! Soninha que me fumar para queimar as provas!!
20. Gentem, parem de sacanear candidato! Ele estava sem capacete porque não tem do número dele!
21. Eu não sou tão barata! RT: Folha de papel: R$0,02; amassar o papel: R$0,0001. Ver o #serrarojas simular traumatismo não tem preço


3) EXCLUSIVO!!! VASOU NA NET A TUMOGRAFIA FEITA PELO CANDIDATO JOSÉ ROJAS SERRA.

ELE FOI GRAVEMENTE ATINGIDO NA CABEÇA POR UMA PERIGOSÍSSIMA BOLINHA DE PAPEL DE EFEITO RETARDO.


AS CENAS PODEM SER VISTAS NESTE VIDEO: http://www.youtube.com/watch?v=2n1krpJveec


AINDA BEM QUE ELE FOI PRONTAMENTE ATENDIDO POR UM MÉDICO "ESPECIALISTA" NO ASSUNTO, QUE TINHA CARGO COMISSIONADO NO GOVERNO DE CESAR MAIA NA CIDADE DO RIO.


VEJAM EM PRIMERÍSSIMA MÃO A FOTO DESTE POST

MAS QUE O SERRA É A CARA DO HOMER SIMPSON ISSO NINGUÉM PODE NEGAR...
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20.10.10

Já?

Segundo o Datafolha, 30% dos que votaram em 3 de outubro já esqueceram em que deputados votaram – 28% dos entrevistados não souberam dizer o nome dos dois senadores em quem votaram.

Em menos de 20 dias, cerca de 40 milhões de eleitores manifestaram efetivamente seu afastamento da política simplesmente esquecendo seus eleitos. Manifestaram a equivocada compreensão de que a política não merece a sua atenção, e muito menos merece a sua responsabilidade.

Especificamente, isto significa que pelo menos 30% do parlamento possui uma legitimidade precária. E, do ponto de vista geral do processo democrático, indica claramente a esclerose da redução da democracia apenas à sua dimensão representativa, já que revela a qualidade do processo de escolha, ainda mais se somarmos, ao mero esquecimento, todas as motivações inconfessáveis desde o voto, puro e simples, até o envolvimento militante de outras parcelas significativas da sociedade cuja magnitude e influência afetam e até determinam os resultados eleitorais e por decorrência boa parte do jogo político como um todo.

A outra porção do jogo político é a desenvolvida por segmentos ainda difusos e minoritários mas já capazes de pautar a sociedade com, por exemplo, a Lei da Ficha Limpa, engendrando outro tipo de processo político que aponta para a incorporação institucional de mecanismos de democracia direta, com a participação dos cidadãos para além das eleições, e o controle social destes sobre o Estado.

Esta via chegou a se colocar como tendência no Brasil, entre outros motivos, quando se formalizou a institucionalização dos Conselhos paritários de políticas públicas, na Constituição de 88, onde se destaca o setor da saúde, e com a prática do Orçamento Participativo dos governos de esquerda que, no entanto, recuaram a partir do final dos anos 90, revertendo um claro processo de aprofundamento da democracia e sua base social ativa.

Projetos

Há poucos dias do segundo turno, a maior parte da sociedade não compreende a relação entre candidato(a) e o projeto político que este(a) representa e anuncia. A decisão do eleitorado sobre o voto que dará é mais fortemente influenciado pela aparência e eloqüência pessoal dos candidatos do que por sua trajetória de vida pública como marca do projeto com que está comprometido.

Para escolher quem vai coordenar o governo da nação, e tomar decisões administrativas com forte determinação sobre a economia, questões como a do aborto, assumem importância maior do que o problema de como diminuir a desigualdade social, se é que se trata de um consenso.

O asfaltamento da rua do eleitor, por exemplo, muitas vezes é mais determinante sobre o voto para escolher o presidente da república do que aquilo que se pavimentou para manter o país livre do jugo das instituições de controle econômico internacionais, como o FMI(Fundo Monetário Internacional).

Entre Dilma e Serra ou entre Ana Júlia e Jatene há diferenças de atributos pessoais, como haveria entre quaisquer outras duas pessoas. Mas o fundamental é entender a diferença entre os projetos que representam e os impactos sobre a qualidade de vida da nação. Mas isto não é assumido como problema a ser enfrentado, pela maioria das pessoas.

É obvio que o modo de administrar faz parte do projeto, ou seja, aonde se propõe chegar está fundido ao como se pretende chegar. Mas erros de condução administrativa estão presentes em todos os grupos que já governaram. O que é difícil é diferenciar a prática produto de um erro e a que foi produto de uma decisão ou concepção consolidada.

Por exemplo, atender mal um cidadão na fila de um órgão público é um erro administrativo já que ninguém quer perder a simpatia do eleitor, já adotar as privatizações de empresas estatais como política geral, é uma decisão consolidada, de projeto. No entanto, um cidadão mal atendido às vésperas das eleições tende a definir seu voto sob este impacto, sem refletir que as privatizações, tomadas como política e estratégia econômica, enfraquecem o Estado em seu papel regulador deixando o cidadão sem qualquer proteção frente ao jogo de mercado regido pela lei do mais forte etc, etc e tal.

Educação

Somos razão e emoção. Mas sem desenvolver capacidade analítica e sem ter as informações necessárias, todos nós tendemos a tomar decisões majoritariamente emocionais, é só refletirmos sobre nosso comportamento como consumidor. As pesquisas mostram que a grande maioria compra por impulso, sem refletir criteriosamente sua necessidade real e o processo de produção que, ao consumir, se financia.

A obesidade, apontado como uma das maiores endemias nos países tidos como desenvolvidos, reflete isso. A grande maioria não tem consciência de que projeta em seus hábitos alimentares suas frustrações e ansiedades, nem se dá conta de que o uso de químicos na produção dos alimentos concorrem para a efetivação de doenças, assim como, a maioria não se dá conta se a produção do alimento envolve trabalho infantil, trabalho escravo e outros fatores que corroboram para o agravamento do quadro social que eclode nas diversas formas de violência com as quais temos que conviver no mundo hoje.

Sem desenvolver capacidade analítica, como entender informações estatísticas que revelam processos político-econômicos, não se compreende o projeto de sociedade em andamento. Por exemplo, todos os candidatos se dizem comprometidos a distribuir renda e reduzir desigualdades sociais. Mas para medir a distribuição e a desigualdade de renda, são utilizados indicadores como o índice de Gini, para medir a chamada distribuição pessoal da renda, e a participação das rendas do trabalho no PIB, para medir a distribuição funcional da renda. Se o cidadão/eleitor não dominar estes elementos não poderá analisar e descobrir quem fala a verdade.

Por sua importância estrutural na economia, tomemos como exemplo a distribuição funcional da renda, ou seja, a distribuição entre trabalho e capital, calculada pelo IBGE com base nas Contas Nacionais anuais. Os números apurados revelam que a partir de 1995(Governo FHC = Projeto Liberal), houve uma trajetória de queda do fator trabalho contínua até 2004, quando alcançou 58% do PIB. A partir de 2005(Governo Lula = Projeto Social), a curva se tornou ascendente, em todos os anos, de forma consecutiva chegando a 59,4% em 2007, sendo estimada pelo IPEA em 2009, em 62,3%. Estes números dizem que no Projeto Social, o peso do trabalho tende a crescer frente ao peso do capital, invertendo a tendência do Projeto Liberal. Ou seja, a geração de oportunidades de trabalho, o aumento da média dos salários e a valoração de segmentos de trabalhadores antes marginalizados e não reconhecidos é uma ênfase no Projeto Social, diminuindo as desigualdades e suas conseqüências como o acesso a direitos básicos. Enquanto que no Projeto Liberal a ênfase é a melhora das condições de lucro e demais remunerações do capital, o que, em todo o mundo, tem acirrado as desigualdades.

Os projetos também se evidenciam nas medidas práticas do cotidiano político. As causas da renda favorável aos trabalhadores nos últimos anos se deu porque o salário mínimo real médio, a preços de hoje, na fase de queda(Projeto Liberal), era de R$ 292,53. Na fase de recuperação(Projeto Social), foi de R$ 426,85. A taxa média real básica de juros nos anos 1995-2004 foi de 14,8%, enquanto nos anos 2005-2009 foi de 8,9%. Na fase de queda, a geração de empregos com carteira assinada, em média por ano, era de 344 mil postos de trabalho. Na fase de recuperação, foi de 1,31 milhão de postos.

No entanto, uma análise presidida pela razão concluiria que as medidas mostram que o movimento socioeconômico brasileiro, pelo Projeto Social caminha em direção ao desenvolvimento sustentável. Contudo, “indicam também que a caminhada começou faz pouco tempo e ainda está longe do ponto ideal de chegada” conforme conclui o professor João Sicsú do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Política

Hoje, a política é rebaixada ao jogo das percepções superficiais que faz com que a grande maioria da sociedade viva buscando explicações mágicas para todas as coisas da vida: renda, desemprego, doenças, violências, extrapolando o âmbito existencial, próprio da fé humana.

O discurso é ainda o elemento de maior racionalidade em uma campanha. “Se tem uma coisa que tenho coragem é de olhá-lo(FHC) olho no olho, porque sei que dia 01 de janeiro estou deixando de ser presidente da república e onde eu for andarei de cabeça erguida, porque sei que contribui bastante com o meu país, diferente dele que afundou essa nação, quebrou o país três vezes, triplicou a dívida externa e interna, elevou o risco país em 2.440 pontos, praticou a maior taxa de juros de nossa história, que chegou a 35%, vendeu nossas estatais para o capital estrangeiro, e o pior de tudo, Fernando Henrique desempregou 14 milhões de país e mães de famílias” afirma inflamado Lula em comício. No entanto, mesmo utilizando dados e estatísticas, para o público a entonação é mais convincente que o conteúdo.

Ainda tentando conferir racionalidade ao discurso, Lula tenta traduzir o projeto para uma percepção mais inteligível pela platéia, o que faz como ninguém. “No tempo dele(FHC) e do Serra não foi distribuído nenhum livro didático nas escolas públicas. No tempo deles as pessoas eram despejadas de suas casas populares porque não conseguiam pagar, e nós acabamos com isso e ainda realizamos o sonho da casa própria de 700 mil brasileiros. No tempo deles pobre não tinha vez nas universidades. Universidade era só para filho de rico, mas nós distribuímos 400 mil bolsas do programa universidade para todos e hoje o filho do pobre tem vez. É por isso que estou disponível para olhá-lo cara a cara, mas sei que ele irá baixar a cabeça, pois não é possível que ele não tenha pelo menos o mínimo de vergonha na cara”. Tentando explicar a relação entre candidato e projeto Lula diz “todo mundo sabe que quem está por trás do Serra é o Fernando Henrique. Eles são farinha do mesmo saco! Enquanto eu não me importo em ir para televisão ou subir num palanque para pedir voto para a Dilminha”...

Bem, é assim que funciona, a questão é refletir quem acaba ganhando com este jeito de fazer política, tanto mais se percebermos a política em dimensão de Estado e modelo de Sociedade, para muito além de eleições e governos. Se..., não quisermos aceitar a amarga síntese da política de um certo dramaturgo inglês da Idade Média: "São uns cegos guiados por idiotas"(W.Shakespeare)
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14.10.10

Forum Brasileiro de Economia Solidária apóia Dilma





O Fórum Brasileiro de Economia Solidária, em nome dos empreendimentos solidários, rede de gestores e entidades de apoio e fomento que constituem o movimento organizado de Economia Solidária no país, vem a público manifestar seu posicionamento com relação ao segundo turno das eleições de 2010.

O Movimento de Economia Solidária propõe, a partir de suas práticas econômicas e organização política, a mudança do modelo de desenvolvimento baseado na exploração irrestrita dos recursos naturais e no favorecimento às grandes empresas capitalistas. É preciso que o desenvolvimento tenha a vida como foco e motivação, tendo como motores o trabalho associado, a solidariedade, a cooperação, o respeito à natureza, a diversidade cultural, étnica e generacional, o reconhecimento e autodeterminação dos povos e comunidades tradicionais, e a justiça social, de gênero e ambiental. Neste sentido, afirmamos que a economia deve estar a serviço da vida, e não o contrário.

Por isso lutamos, independentemente do processo eleitoral, pela democracia plena e por diferentes políticas públicas e ações integradas, dentre as quais destacamos:
Solidariedade na atividade econômica: Reconhecimento do trabalho associado como forma de promoção do desenvolvimento econômico com justiça social, enraizamento comunitário e preservação ambiental; promoção de redes e cadeias de produção, comercialização e consumo solidários; promoção do acesso a crédito através de instrumentos democráticos e locais de finanças solidárias como alternativa ao sistema financeiro especulador; ampliação do fomento da produção da agricultura familiar, camponesa e agroecológica, garantindo o direito à biodiversidade livre de transgênicos e agrotóxicos; defesa do trabalho digno; democratização e controle social do BNDES; emancipação econômica das mulheres.

Por um consumo que promova a vida: Promoção do consumo responsável; garantia do direito à informação detalhada ao consumidor; afirmação do comércio justo e solidário como promotor de circuitos territorializados de distribuição equitativa de bens e serviços; superar o consumismo através de formação para o consumo responsável e regulamentação da propaganda; defesa da segurança e soberania alimentar e nutricional.

Liberdade e diversidade de expressão: defesa e reconhecimento dos conhecimentos tradicionais; opção pelo conhecimento livre de patentes; democratização da imprensa e mídia, garantindo espaço privilegiado a rádios e TVs comunitárias e outros meios de comunicação populares; apoio às diversas expressões culturais populares.

Direitos territoriais: reformas agrária e urbana; demarcação de terras e reconhecimento dos povos e comunidades indígenas e tradicionais; limite do tamanho da propriedade da terra; integração internacional pautada na soberania, solidariedade e respeito mútuo, e economicamente em empreendimentos de economia solidária.

Preservação de nosso planeta: revisão da matriz energética para fontes renováveis e limpas (tais como eólica e solar); defesa dos biomas e biodiversidade brasileiros, em especial o Cerrado e a Amazônia; melhoria e ampliação do transporte público para redução de congestionamentos e poluição; expansão do apoio às cooperativas de catadores de materiais recicláveis.

Por uma gestão da política de Economia Solidária em outro patamar: conforme deliberação da II Conferência Nacional de Economia Solidária, afirmamos a necessidade de criação de um Ministério de Economia Solidária para dar conta deste setor de forma integrada e sistêmica.

Ao analisarmos os programas, a trajetória política e os governos representados pelas duas candidaturas para este segundo turno, fica evidente que a candidatura do PSDB-DEM, além de não defender estas ações, é avessa à organização da sociedade civil através da criminalização dos movimentos sociais. A candidatura Dilma Rousseff, pelo seu caráter progressista, é a que pode, neste segundo turno, abrir espaço a estas inovações no modelo de desenvolvimento, já tendo inclusive, no atual governo, apoiado algumas delas.

Desta forma, o Fórum Brasileiro de Economia Solidária, através de sua base de milhares de empreendimentos solidários e organizações e redes locais e nacionais, torna público o seu apoio, de forma apartidária, à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República.

Para além de nossa posição, repudiamos o uso de boatarias, mentiras e manipulação de informações com o objetivo de fomentar o preconceito à pessoa de Dilma, mulher lutadora que deve ser respeitada por suas conquistas e história de defesa da democracia neste país. Defendemos uma campanha baseada nas propostas e programas políticos dos candidatos, para permitir a opção consciente da população brasileira.

Coordenação Nacional do Fórum Brasileiro de Economia Solidária
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9.10.10

Estivesse vivo, John Lennon faria hoje 70 anos.

Filho de classe média baixa de Liverpool, Lennon é um raro exemplo de coerência política mesmo depois do estrondoso sucesso que viveu a partir dos Beatles. Seu mais famoso “manifesto político” está sintetizado, e imortalizado, na canção Imagine. “Imagine todas as pessoas vivendo em paz” propõe Lennon. Imagine John Lennon Composição: John Lennon Imagine there's no heaven Imagine que não há nenhum paraízo It's easy if you try É fácil se você tentar No hell below us Nenhum infermo abaixo de nós Above us only sky Acima de nós só o céu Imagine all the people Imagine todas as pessoas Living for today Vivendo por hoje Imagine there's no countries Imagine que não há mais nenum país It isn't hard to do Não é dificil de fazer acontecer Nothing to kill or die for Nada pelo que matar ou morrer And no religion too Nenhuma religião também Imagine all the people Imagine todas as pessoas Living life in peace Vivendo a vida em paz You may say Você pode dizer I'm a dreamer Que eu sou um sonhador But I'm not the only one Mas eu não sou o único I hope some day Espero que algum dia You'll join us Você venha se juntar a nós And the world will be as one E o mundo vai ser um só Imagine no possessions Imagine que não haja propriedades I wonder if you can Me pergunto se você consegue No need for greed or hunger A brotherhood of man Imagine all the people Imagine todas as pessoas Sharing all the world Partilhando todas as coisas do mundo You may say, Você pode dizer I'm a dreamer Que eu sou um sonhador But I'm not the only one Mas eu não sou o único I hope some day Espero que um dia You'll join us Você se junte a nós And the world will live as one E o mundo viverá como um Ora, se sonhar – no sentido de querer mudar, planejar e agir – é a única capacidade que nos diferencia dos outros animais, é sonhando que nos tornamos humanos. Ou seja, é exatamente o sonho que nos humaniza. Ou ainda, tudo o que reprime, aprisiona ou apequena o sonho das pessoas, as desumaniza tornando-as coisas, ou no máximo, outro tipo de animal qualquer. Graciliano, Gramsci, Mandela e muitos outros jamais deixaram de ser livres mesmo tendo passado tantos anos encarcerados, mesmo diante de multidões que vagam aprisionadas por onde quer que queiram. Por isso insisto sonhando com um mundo justo, sem desigualdades mas plural e diverso, de seres humanos livres e solidários. Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único. Espero que um dia você se junte a nós e o mundo será um só...
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